Gente feliz também sofre de depressão

Eu resolvi falar do meu problema pessoal, pois sei que esse assunto ainda é meio tabu em muitos meios. Quero dividir com vocês o que aprendi, te incentivar a buscar ajuda e mesmo olhar com mais compaixão com quem sobre do problema.

Querido diário,

Nem acredito, mas acabei de voltar de uma consulta com um psiquiatra. Logo eu que sempre achei que fosse médico de maluco! Logo eu que evito tomar remédio até para dor de cabeça! Mas vou explicar o que aconteceu.

De uns meses para cá, tenho me percebido progressivamente mais irritado. Não está fácil lidar com a pandemia: ganho menos (minha renda caiu), trabalho de casa, me encontro menos com meus amigos. Quer dizer, não tenho tido tantos momentos de descontração e lazer quanto antes.

Com o afrouxamento do isolamento social e consequente retorno das atividades de alguns bares e restaurantes, meus amigos combinaram de voltarmos a tomar nosso clássico chopp nas terças-feiras. Antes, eu sempre esperava ansiosamente por esse dia em que brincávamos, ríamos e perdíamos a noção do tempo.

Mas, pela primeira vez na vida, senti preguiça de ir. Tudo bem que não tenho dormido muito bem, acordo de madrugada e não consigo voltar a pegar no sono, por isso tenho me “arrastado” para fazer minhas atividades diárias.

Assim, sair de casa parecia ser “muita função”, o que achei estranho pois costumava ser aquele amigo empolgado que movimentava todos os outros para mantermos nossa “tradição”.

Bem, fui! Foi gostoso revê-los, rimos juntos, falamos besteiras, mas algo lá no fundinho ainda me incomodava: uma certa inquietação, como se eu não estivesse conseguindo usufruir 100% daquele momento. Não me manifestei porque sabia que não faria muito sentido, mas percebi que pequenas coisas às quais antes eu jamais atribuiria valor, como não responderem a um de meus comentários ou não rirem das minhas piadas, me doía.

Perguntei a mim mesmo se estava sendo chato. Talvez eu estivesse atrapalhando a diversão dos meus amigos! Isso me pareceu bem coerente, uma vez que eu não estava me sentindo tão à vontade quanto normalmente. Assim, mesmo em meio a pessoas que me amam tanto, me senti sozinho.

Resolvi procurar a Elaine, psicóloga da minha empresa que, dentre algumas perguntas que me fez, uma em especial me marcou: “Você é feliz?”. Não precisei pensar para responder que sim, mas para minha surpresa, minha resposta me soou mais automática do que sincera. Afinal, como eu poderia NÃO ser feliz? Tenho saúde, uma aparência razoável, casa, um bom trabalho, minha família são ótimos e não posso reclamar da minha condição financeira.

Ou seja, não tenho uma razão para não estar feliz, basta pensar em quantas pessoas se encontram em situação pior do que a minha. Pois é, foi por pensar assim que me senti culpado, envergonhado e pensei com muita dor que devo ser ingrato. Mas dando continuidade à conversa com a Elaine, em um determinado momento ela sugeriu que, talvez, apesar de ativo, eu estivesse deprimido.

Minha ideia de uma pessoa em depressão era de alguém triste, que não consegue trabalhar, não se diverte com amigos nem tem forças para tomar banho, comer ou socializar. Alguém choroso ou que deseja morrer. E eu não me sentia dessa forma, me sentia apático.

Dessa maneira, depois de pedir indicação para alguns bons amigos, cheguei a um psiquiatra de confiança. Confesso que o que me motivou a procurá-lo foi uma fala de Elaine: “O que você tem a perder? Mesmo que o psiquiatra lhe prescreva uma medicação, você será obrigado a tomá-la só por isso? Vá e simplesmente escute o que ele tem a dizer”.

Fui e resolvi escrever aqui o que eu entendi:

Acreditar que alguém está deprimido APENAS quando não se quer mais viver é como acreditar que só se está realmente com dor quando não se consegue mais andar. A maioria das pessoas deprimidas conseguem dar conta da própria vida, vão trabalhar, fazem cursos, mantêm o namoro e amigos. Para quem está de fora, é possível que poucos sinais fiquem evidentes.

Para quem está dentro, é como se houvesse um peso exagerado em cada atividade que deve ser realizada no dia, incluindo o lazer. Mas, sua instalação é lenta e não abrupta como a tristeza. Pouco a pouco, independentemente do quão boas sejam as condições da vida da pessoa, tudo vai perdendo um pouco de seu sentido.

Estar deprimido é não enxergar mais cor na vida, que, quando leve, pode se manifestar como um leve desbotamento. É perceber que até aquilo que você mais ama está sem graça ou até desagradável. É acordar e desejar que o dia acabe logo para você novamente adormecer e se desconectar da realidade.

É se sentir solitário mesmo em meio à multidão. É sentir-se sem forças, querendo sumir e não sentir ânimo para dar continuidade ao que sempre fez sentido para nós. E em meio a tristeza, irritabilidade, e apatia, nossa visão de si mesmo parece reduzir à insignificância.

Muitas pessoas em depressão, assim como eu, fingem que está tudo bem por medo de serem julgados pelos outros, pois, em geral, já estão sendo por si mesmos. E, para aqueles que são muito orgulhosos, reconhecer o problema e buscar ajuda é algo muito difícil. É por razões como essas que ouvimos que devemos ser gentis, pois não sabemos quais batalhas internas cada pessoa está travando.

Não podemos negar que a pandemia lançou luz sobre a saúde mental. Como muitos de nós tivemos nosso equilíbrio abalado durante o isolamento, surgiu um senso maior de coletivo, de se pensar nas necessidades dos outros após vivenciarmos o pesar, a angústia, a tristeza e a falta de esperança diante de um cenário tão incerto.

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde reconhece a depressão como a doença que mais leva à perda de anos de vida por incapacidade no mundo, seja por aumentar a mortalidade, seja pelo tempo vivido com perda de funcionalidade e qualidade.

O risco costuma aumentar face a mudanças na vida, estresse ou trauma, mas não é regra. Sem falar que existe um traço de hereditariedade imenso, o que fez muito sentido para mim, uma vez que não sei quantos parentes por parte de mãe sofrem ou sofreram de depressão

Ao final da consulta, constatei que as pessoas não devem realmente saber o que é depressão; pelo contrário, assim como eu (anteriormente), elas DUVIDAM da sua natureza. Em parte, por confundirem consequência com causa.

Que atire a primeira pedra quem nunca teve preconceito em relação às pessoas deprimidas e quem nunca julgou depressão maluquice ou frescura. Pois bem, isso acontece e muito.

Para muitas pessoas próximas, é difícil exercitar a empatia e compreender a batalha interna que trava aquele que está aflito. Muitos acham que é uma questão de preguiça, de má vontade para encarar a vida de uma forma funcional. Não compreendem que há um inimigo poderoso que o atormenta: sua própria mente.

Felicidade e Infelicidade são estados de espírito e não sinônimos de saúde e doença mental, respectivamente. Infelicidade não é causa de depressão e sim, consequência. A felicidade não nos protege contra a depressão, mas é violada quando se deprime, de forma que é possível se sentir infeliz sem estar deprimido, mas dificilmente é possível se sentir feliz estando deprimido.

Na minha opinião, viralizar esse conhecimento é uma responsabilidade social de todos pois, se compreendido e efetivamente integrado ao saber coletivo, poderemos reduzir o sofrimento e a mortalidade populacional tanto quanto qualquer campanha vacinal.

Ao suspeitar, indique ajuda!

Não faça pouco caso daquele que sofre.

Se for contigo, aceite ajuda!

O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, em que ambos os profissionais unem forças, é indispensável. Você não está só.

Reprodução adaptação e tradução por

Val F Allstarpixel

fontes:

G1 Especial 

Texto inspirado na publicação “O Livro Para Quem Adoeceu”, de David Sender

Por David Sender (@drdavidsender)

CEO Espaço Calmamente

YouTube.com/FabianaBertotti

Photo by Andrea Piacquadio

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